As Dimensões do Movimento

30 de dezembro de 2010

Fabiana Menezes (2003)

O movimento é muito mais do que o simples deslocamento no espaço, ao movimentar-se as crianças se expressam e agem sobre o meio.

Desde o nascimento, a criança desenvolve seu corpo e os movimentos que com ele pode realizar. Ela locomove-se e expressa-se por gestos que são cada vez mais ampliados, como um espiral, ou seja, utilizando seu conhecimento anterior.

O movimento é um recurso inicial que a criança possui para se inserir na cultura, é através dos movimentos que o bebê irá exteriorizar estados de insatisfação ou satisfação que serão transformados pela mãe e por outros adultos em recursos expressivos. Quando, por exemplo, um erguer de braços pode ser interpretado como uma intenção de “ir passear”. Dessa forma, a 1ª função do ato motor está ligada a expressão, somente aos poucos é que as habilidades e competências instrumentais para agir sobre o meio irá se desenvolver.

Segundo Le Boulch(1982) “a educação psicomotora na idade escolar deve ser antes de tudo uma experiência ativa de confrontação com o meio.”

Ele diz que a necessidade de se comunicar,de intercâmbios com o ambiente, manifesta-se desde tenra idade. Se o ambiente favorecer a expressão desta necessidade,a criança irá desenvolver a comunicação gestual para depois desenvolver a linguagem oral. Para o autor a linguagem aparece e se desenvolve, através da necessidade do intercâmbio com a outra pessoa. Esse intercâmbio , no primeiro momento, é corporal e aos poucos vai se tornando corporal e verbal.Ainda segundo Boulch,” a qualidade expressiva e afetiva da linguagem,antes de vir carregada de uma mensagem racional,mostra o desejo que a criança tem de falar,muito antes dela ter acesso a linguagem oral.”

Paralelamente as habilidades expressivas, as crianças realizam importantes conquistas no que diz respeito a sua locomoção e consequentemente nas descobertas de novas possibilidades de agir sobre o meio físico, ampliando o desenvolvimento cognitivo. Quanto maior as oportunidades oferecidas as crianças, maior será a sua interação com o mundo. No entanto, erroneamente, em nossas práticas o que verificamos e que a maioria dos espaços educativos acreditam que os movimentos realizados em horários não determinados podem reduzir a atenção, a percepção e consequentemente a aprendizagem da criança,escolhendo um horário onde os movimentos possam ocorrer; muitos lugares chegam a montar sua matriz curricular, fornecendo uma carga horária específica para a muito comentada, porém pouco comprendida psicomotricidade. Essa crença acaba por tolir a expressividade da criança e não contribui em nada para o desenvolvimento da autonomia do sujeito, que acaba sendo obrigado a seguir modelos.

As instituições devem possibilitar a dimensão expressiva do movimento, criando condições das crianças utilizarem gestos, posturas, ritmos e também de se apropriarem dos significados expressivos do movimento, como por exemplo, através da dança e das brincadeiras que envolvam o canto e versos ao movimento.

Através dos espelhos,que é fundamental nos espaços de educação infantil,as crianças familiarizam-se com a imagem do próprio corpo, ao vé-la refletida juntamente refletida com a de outras crianças. Os jogos de encaixe, lançamento,etc., ampliam as possibilidades de manuseio dos diferentes objetos de sua vida cotidiana e o contato com materiais que possuem características físicas diferentes(textura, temperatura,etc.)desenvolve a sensibilidade corporal.

Os educadores devem organizar o ambiente de forma a facilitar a ampliação das possibilidades de deslocamento no espaço e de exploração de diferentes qualidades e dinâmicas do movimento( força, velocidade,resistência e flexibilidade).

Necessidades especiais…Do que estamos falando?

28 de dezembro de 2010

Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso
, digo para mim mesmo que a maneira de Perseu eu devia voar
para outro espaço. Não se trata de absolutamente de fuga
para o sonho ou o irracional.
Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação,
que preciso considerar o mundo sobre outra ótica (…)”Calvino ,1997

Fabiana Menezes(2002)

Antes de descrevermos sobre a impotância do diagnóstico, é necessário delimitar quem são os protagonistas da Educação Especial. Os parâmetros Educacionais da Educação Especial (1994) definem os seguintes grupos como alunados da Educação Especial:

É aquele que, por apresentar necessidades próprias e diferentes dos demais alunos no domínio das aprendizagens curriculares correspondentes a sua idade, requer recursos pedagógicos e metodologias educacionais específicas. Genericamente chamados de necessidades educativas especiais, classificam – se: portadores de deficiência (mental, visual, auditiva, física, múltipla), portadores de condutas típicas (problemas de conduta) e portadores de altas habilidades (superdotação). (PNEE, 1994)

No entanto, a partir das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, aprovada em 03/07/2001, ocorreu uma ampliação deste alunado, tal documento que tem como objetivo nortear todo o trabalho da educação especial descreve que:

Tradicionalmente, a Educação especial tem sido concebida como destinada apenas ao atendimento de alunos que apresentam deficiências (mental, visual, auditiva, física/motora e múltiplas); condutas típicas de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos, bem como de alunos que apresentam altas habilidades/superdotação.

Hoje, com a adoção do conceito de necessidades educativas especiais, afirma-se o compromisso com uma nova abordagem, que tem como horizonte a inclusão.

Dentre dessa visão, a ação de educação especial amplia-se, passando a abranger não apenas as dificuldades de aprendizagem relacionadas a condições, disfunções, limitações e deficiências, mas também aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica, considerando que, por dificuldades cognitivas, psicomotoras e de comportamento, alunos são frequentemente negligenciados ou mesmo excluídos dos apoios escolares.

O quadro das dificuldades de aprendizagem absorve uma diversidade de necessidades educacionais,destacadamente aquelas associadas a: dificuldades específicas de aprendizagem, como dislexia e disfunções correlatadas; problemas de atenção, perceptivos, emocionais, de memória, cognitivos, psicolingüísticos, psicomotores , motores, de comportamento e ainda a fatores ecológicos e socioeconômicos, como as privações de caráter sociocultural e nutricional.

Assim, entende-se que todo e qualquer aluno pode apresentar, ao longo de sua aprendizagem, alguma necessidade educacional especial, temporária ou permanente, vinculada ou não aos grupos já mencionados.

Concordamos com Edler, quando em seu artigo “Diferença, deficiência, necessidades educativas especiais”, descreveu que:

Em torno da questão das necessidades, no campo da Educação Especial,

constata-se o uso indiscriminado das expressões
necessidades especiais
e necessidades educativas especiais.

Ambas são muito abrangentes, o que têm gerado muitas e diversas

interpretações quanto ao atendimento educativo mais adequado.

Ainda oferecem o risco de criar um outro sistema de rotulação para

categorizar as necessidades…

Necessidades especiais podem ser consideradas como as

exigências de um indivíduo

Quando uma necessidade não é satisfeita ela interfere na qualidade de vida,

prejudicialmente(…)

Ainda segundo a autora, criou -se no imaginário coletivo dos educadores, uma idéia de que existe uma relação biunívoca entre necessidades educacionais especiais e deficiência, de tal modo que se incluem na condição de deficientes todos que apresentam necessidades educacionais…

Edler nos remete ainda aos superdotados que, igualmente,
possuem exigências próprias(…)

E com muita propriedade questiona:

Quem são, afinal, os alunos que apresentam
necessidades educacionais especiais?
Ou indagando de outro modo:
que aluno, ao longo de seu percurso escolar,
nunca apresentou
em caráter provisório, ou permanente _
necessidades educacionais especiais?